Manuel Alegre: Cair de Pé, lutar pelo futuro
Sexta, 04 Fevereiro 2011


Depoisdas eleições, seria estranho que não voltássemos a elas, paraanálise dos resultados. O óbvio é registar que a vitória deCavaco foi a mais fraca de sempre, num processo de reeleição de umcandidato que já era presidente, que Manuel Alegre perdeu noobjectivo de forçar uma segunda volta, e que houve muitos votos de“protesto” face às candidaturas apoiadas pelos partidos.

Algunsdesses votos de protesto foram para um número significativo de votosbrancos e nulos (quase 6%, 280.000 votos). Não sei se as pessoas queo fizeram estavam conscientes de que o seu voto, expresso dessaforma, acabariam por contribuir para a vitória de Cavaco na 1ªvolta. Mas, ao contrário do que acontece nas legislativas, o facto éque os votos brancos ou nulos não contam para apurar se determinadocandidato tem ou não 50% dos votos mais um, para obrigar a uma 2ªvolta. Foi o que aconteceu desta vez. Bastaria que esses votosbrancos (4,26%) tivessem contado para o apuramento eleitoral paraobrigar Cavaco a uma 2ª volta e, provavelmente, a perder.

 

Assim, foi Alegre que perdeu. É claro que as derrotas são sempre por culpa própria. Ao contrário de outras candidaturas, que só falaram nos seus próprios resultados para dizer que “ganharam” – Fernando Nobre foi o caso mais caricato, mas Francisco Lopes acabou por dizer o mesmo -, desvalorizando o facto de Cavaco ter ganho num país que votou maioritariamente à esquerda nas últimas legislativas, Manuel Alegre assumiu “pessoalmente” a derrota, afastando expressamente a responsabilidade dos partidos que o apoiaram.Essa foi, mais uma vez, uma demonstração inequívoca dos valores éticos que nortearam Alegre e a sua candidatura. Mas para nós, BE, a responsabilidade maior não foi de Manuel Alegre.É certo que o candidato fez uma campanha a duas velocidades: uma primeira, pré-eleitoral, em que foi visível um registo contido no ataque às políticas de austeridade, ao OE2011 e aos PECs e nas críticas a Cavaco Silva pela sua co-responsabilidade na crise; e uma segunda, muito mais acelerada e dinâmica, em que claramente Manuel Alegre surgiu com o candidato de referência à esquerda no ataque à direita contra a desejada entrada do FMI, contra a liberalização dos despedimentos e em defesa dos serviços públicos, do Estado Social e dos direitos democráticos. Aí, Alegre mobilizou, empolgou e empolgou-se.Mas Alegre teve sempre pela frente um partido socialista que, em teoria, o apoiava mas que, desde sempre, tentou sempre puxar para trás e desvalorizar a sua candidatura. O próprio coordenador do PS no distrito o confessou publicamente, no dia seguinte às eleições, ao assumir que “a responsabilidade da derrota de Manuel Alegre” foi do PS…Manuel Alegre fez tudo para recuperar a identidade da esquerda no combate política contra a direita e o seu candidato único. Especialmente durante a campanha, Manuel Alegre ao colocar na agenda política a luta contra a entrada do FMI, contra o agravamento da crise através de medidas que a direita há muito vem defendendo, tais como a liberalização dos despedimentos e a privatização dos serviços públicos, ao rejeitar uma Europa hegemonizada pelo neo-liberalismo da Srª Merkel e o BCE e ao assumir o compromisso de veto político contra todas leis que pusessem em causa o Estado Social e os direitos democráticos, deixou bem vincado o sentido do voto na sua candidatura como a verdadeira alternativa de esquerda para combater Cavaco Silva e a direita nestas eleições.Manuel Alegre não ganhou essa batalha, mas caiu de pé. O seu combate ajudou a reforçar as bases da construção de uma esquerda ampla socialista, anti-neoliberal e anti-capitalista, que o Bloco, junto com todos os socialistas que se encontraram nesta candidatura, vão continuar a afirmar nas lutas futuras que aí estão à nossa frente.03-02-11Heitor de Sousa