HÁ 35 ANOS...
Sábado, 25 Abril 2009

cravo.gifHá 35 anos, eu tinha 13. Estava num colégio interno, e por estar muito longe da família, | enviava-lhe cartas ou postais, escritos à mão.

A forma que tinha nessa altura para contactar com a família era através desses escritos, que os correios se encarregavam de distribuir.

Eram contactos que relatavam de uma maneira tão pura e clara o amor que nos unia, e a saudade que a distância nos incutia.

Escritos à mão, com o tipo de letras característico das nossas alegrias e tristezas, que acima de tudo se percebia tão bem o que queríamos transmitir ao destinatário.

Recordo-me, ainda, que as primeiras palavras com que se iniciava uma dessas habituais cartas, principalmente vindas da aldeia, começavam sempre com as seguintes palavras: “Esperamos que estejas bem de saúde, que nós por cá estamos bem graças a Deus”. Era uma escrita típica de então.

Trinta e cinco anos depois, esse tipo de escrita ou mensagem quase que não existe.

É raro este tipo de manuscrito fazer parte dos contactos existentes entre as pessoas. E até poderei afirmar que os que existem virão certamente das camadas oriundas das aldeias, e com idades já avançadas, que não deixaram nunca a caneta.

Adelino Granja, na Assembleia Municipal de Alcobaça de 25 de Abril de 2009

 

Hoje, a caneta, com que antigamente utilizávamos para estabelecermos os contactos, tem um outro nome. Pode chamar-se CD, que veio substituir a disquete, que também já faz parte da história dos utensílios de comunicação, ou a “pen”, que ainda está em voga.

Estamos a falar de instrumentos de comunicação diferentes. Outro tipo de “canetas”.

Os instrumentos da escrita que transmitem comunicação já não é a típica caneta ou lápis – É a informática. Quem não tiver o mínimo de conhecimento informática, está a ficar desactualizado, vendo o Mundo a passar-lhes ao lado.

Perguntarão, todos os que me estão a escutar, hoje, quando se comemora os 35 anos da Revolução de Abril, o que quererá ele dizer?

E eu respondo: O que pretendo transmitir é a noção de que o Mundo está a transformar-se numa enorme solidão que tende a fazer desaparecer a comunicação pessoal e humana, entre as pessoas.

Está tão avançada a nova tecnologia informática que quem quiser pode afastar-se, isolar-se de tudo e de todos. Até já nem necessitam de sair de casa para irem à mercearia. Basta ligar a net e encomendar tudo o que deseja.

Há 35 anos atrás, conforme já referi, cada um de nós tinha a vontade de escrever, de expressar humana e fisicamente os amores e as ausências prolongadas. A união entre as pessoas, as conversas do dia a dia, o abraço, o beijo, ou mesmo a expressão vozeira da presença. Os jogos de palavras directas e de abraços físicos, faziam a ligação entre as aldeias, as vilas e as cidades.

Hoje, basta ligar a net, o mensager, ou um chat qualquer, e ligar-nos aos confins do Mundo. E se for preciso, até amizades, amores, ou mesmo prazeres, ou abusos sexuais, se conquistam através desse pequeno meio que é a internete.

Já não necessitamos de expressar com todas as letras o que desejamos transmitir. Os nossos filhos já utilizam palavras que não fazem parte de um dicionário habitual. Utilizam, por exemplo, o “k” e outras letras, para reduzir ao máximo o espaço das suas mensagens. Qualquer dia tudo não passa de uma série de códigos.

Hoje, a ausência física, é um dos exemplos mais negativos da evolução dos conhecimentos informáticos. A evolução da espécie, da qual nos ensinou Charles Darwin, e que ainda hoje nos cativa – vai esquecendo o ser humano, por imperativo dos novos métodos informáticos...

Este exemplo enquadra-se naquilo que sempre considerei ser uma batalha por vencer – qual seja, o não quebrar a solidariedade e o verdadeiro corpo da palavra e da mensagem.

A política tem acompanhado avassaladoramente essa mesma evolução tecnológica. Deixando para trás a parte humana. Os aparelhos partidários já não usam a colagem dos cartazes nas paredes. Já têm os “outdoors”, a publicidade na net, nas televisões, nos msn’s. Os comícios já não se fazem nas ruas, à excepção das manifestações sindicais. Utilizam as salas e os salões, com enormes écrans televisivos. Poucos são os partidos que, em campanha eleitoral, ainda fazem a propaganda através do porta-a-porta, de forma contínua e esclarecedora.

É neste ponto que penso que alguns dos valores inspirados no 25 de Abril, estão a desaparecer, ou nunca foram cumpridos: A ausência do porta-a-porta, sempre e não apenas em campanhas eleitorais.

E é precisamente no que conhecemos, embora poucos, do que é o Poder Local – o Poder Autárquico – que não deveremos esquecer as pessoas – fisicamente e não através da net.

Ainda existe muita gente que não esqueceu a caneta ou o lápis, e que não possui a pen.

O nosso concelho é composto por uma maioria significativa de pessoas que fazem parte do mundo rural. O nosso eleitorado vive maioritariamente nas aldeias.

 

Estas pessoas necessitam de trocar ideias, de pedir explicações, ou de apresentar reclamações. Para tal necessitam que seja o poder - os políticos -, a ir ouvi-los, uma vez que a sua situação social e financeira não lhes permitir vir ter connosco.

A falta de ligação entre os eleitos e os eleitores, na óptica do poder autárquico, é uma das mais graves lacunas, cuja responsabilidade recai sobre os políticos que nos têm governado.

Deveria assentar na vivência do Poder Local uma maior ligação entre os eleitos e eleitores. Essa deveria ser a mais fiel e fácil ligação com o Povo. É no acto eleitoral autárquico, na escolha dos candidatos das várias listas, que o relacionamento é mais estreito.

Quase todos os eleitos são conhecidos por quem os elege, ao contrário do que sucede com os eleitos para o Parlamento Europeu ou para a AR.

No entanto, e neste mesmo concelho, temos um dos exemplos mais visíveis da falta de respeito pelos que elegem os órgãos autárquicos.

Estes últimos mandatos, e em especial o que está a terminar, não deixarão de ficar para os canhenhos da nossa história democrática e autárquica.

Apesar de todos os partidos da oposição, entre eles o BE, terem requerido insistentemente uma maior descentralização, quer do poder executivo, quer do poder fiscalizador – que é esta Assembleia Municipal -, a maioria que lidera os dois órgãos nunca praticou uma política descentralizada, nem sequer respeitou o princípio da representatividade. Preferindo fechar-se nestes cubículos, como que armazéns do esquecimento.

Quantas perguntas. Quantas propostas. Quantas reclamações, não teriam os cidadãos que vivem nas aldeias mais afastadas, nas outras 17 freguesias, de colocar a quem elegeram?

E quantas respostas foram guardadas nas gavetas?

É neste campo que penso que ainda não chegaram os novos meios de comunicação. Onde nunca deverá ser esquecido ou relegado para os períodos de campanha eleitoral, o relacionamento humano, na perspectiva de uma verdadeira democracia representativa e descentralizada.

Não deveremos ser nós a cortar o cordão umbilical de uma verdadeira política autárquica, sejam quais forem os novos meios de comunicação.

Trinta e cinco anos depois da Revolução de Abril, esquecermos os que dão vida aos órgãos eleitorais mais populares, é como que retornarmos aos tempos tão remotos da história de qualquer civilização. Ou dar um pulo enorme entre os meios de comunicação, escrita à caneta, para a utilização da pen, esquecendo tantos quantos nem sequer ainda chegaram, ou nunca chegarão, a saber ler ou escrever.

É tempo de dizermos basta à arrogância e ao abuso do poder daqueles que só se lembram dos aldeões e dos que ainda não utilizam os novos meios de comunicação social, quando lhes convém, em momentos eleitorais, mostrando a sigla do partido em que desejam que votem.

A democracia popular, de porta-a-porta, não poderá, nunca, ser exercida apenas nas campanhas eleitorais. Deverá ser sempre, não uma mera tarefa sazonal, mas uma prática diária do exercício dos mandatos que delegam nos eleitos.

Quando se exercer com dignidade o Poder Local, mais próximo estaremos de um dos direitos mais proclamados com a Revolução de Abril. E em Alcobaça, esse direito está longe de ser alcançado.

Sem dúvida que este ano, em que os eleitores são chamados três vezes às urnas, poderemos dar uma reviravolta nos poderes instituídos quer a nível local quer a nível nacional.

Que se escancarem de vez, as portas que Abril ainda não Abriu!