“Ser feminista é uma escolha” [Newsletter: Lado Esquerdo]

No 4º trimestre de 2022 existiam 183 mil mulheres desempregadas, mais 15 mil que no ano anterior na mesma altura. Neste período, as mulheres representavam mais de metade das pessoas desempregadas, com o desemprego a atingir os 7%, das quais 20,5% eram jovens trabalhadoras. Mais de 60% das mulheres desempregadas recebem prestações de desemprego até 500€, sendo que o limiar da pobreza é de 551€. A precariedade aumentou para 17,2%, e os salários das mulheres são 13% inferiores aos dos homens. Parece que estou a falar de uma sociedade longínqua, mas infelizmente, tal não é verdade. As mulheres em Portugal estão hoje mais desprotegidas, com o crescimento da extrema-direita e do conservadorismo temos assistido a um retrocesso dos direitos que foram conquistados por outras mulheres que lutaram antes de nós. ‘Que querem mais?’, ‘só sabem reclamar’, ‘as mulheres já têm direitos iguais aos homens’, dizem, no entanto, basta olhar para as estatísticas para perceber que as nossas exigências são cada vez mais urgentes e atuais.

Como dizia a Simone de Beauvoir, nós ‘não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres’, ser-se mulher é algo definido social e culturalmente. Atualmente, nasceres com um determinado órgão genital faz com que sejas imediatamente inserido num saco onde não só serás precária, como violentada e objetificada. Para além disso, uma linha cronológica da tua vida é instantaneamente traçada, onde é esperado que cases, tenhas filhos e que faças a lide doméstica. O teu propósito normativo como mulher é abdicares de ti para seres mãe e cuidares da casa e do marido, estaremos sempre descritas à semelhança do homem enquanto vivermos numa sociedade capitalista, e por si só patriarcal.

Uma sociedade que oprime e limita de forma ainda mais exacerbada quando falamos de mulheres sujeitas a múltiplas descriminações, como as mulheres racializadas, migrantes, pertencentes a minorias étnicas, as mulheres com deficiência, as mulheres LGBTQIA+.

Todas nós a certa altura da nossa vida proferimos e acreditamos nos preconceitos que nos são incutidos pela sociedade, não só umas para com as outras, mas também para connosco próprias. Quantas de nós já julgaram outra mulher pelo que trazia vestido, ou por achar que nós mulheres somos umas ‘cabras umas para as outras’, ou por nos comportamos de uma determinada maneira. Romper com estes estereótipos e admitir que somos TODAS vítimas do sistema ‘meritocrático’ não é tarefa fácil. E nada pode caracterizar melhor a sociedade portuguesa atual do que o comportamento de figuras altamente influentes como é o caso do presidente que não esconde ser contra o aborto, do papa que diz que o ‘feminismo acaba a ser machismo com saia’, e de deputados que dizem que ‘as mulheres não têm tanta aptidão para a política’, ou mesmo se afirmam como antifeministas. Estes exemplos mostram que a normalização da desigualdade de género não só está presente na sociedade atual como é cada vez mais frequente, demonstrando que é urgente sairmos do molde onde nos insistem em colocar e acabar com a culpa que sentimos quando não correspondemos aos padrões estipulados socialmente. Temos de nos desconstruir e reconstruir além da luz da sociedade e perceber que somos vítimas de um sistema patriarcal e conservador, cabendo-nos a nós lutar contra ele não só para preservar as conquistas alcançadas até agora, uma vez que direitos ganhos não são direitos adquiridos, como para instaurar a igualdade de género. Citando a Andrea Peniche, num texto descrito no esquerda.net ‘Ser feminista é uma escolha, não é património genético das mulheres. Do mesmo modo que há homossexuais homofóbicos, também há mulheres machistas. Ninguém deseja ser vítima, ninguém gosta de se saber o outro, o desigual, sobretudo porque ocupar esse lugar significa estar arredado de uma série de direitos, materiais e simbólicos. Tomar consciência da sua situação subalterna e depreciada e convertê-la em ação é um passo enorme, necessário, mas difícil’[1]. 

 

[1] Peniche, Andrea. De que lado estamos? Feminismo para o séc. XXI. Revista Esquerda, fevereiro de 2019. Disponível em: < https://www.esquerda.net/artigo/de-que-lado-estamos-feminismo-para-o-sec... >”. Acesso em: 9 de março de 2023.

Texto: Rita Gageiro